Áreas Classificadas | Ex

Zona 0, 1 e 2 (gases) e Zona 20, 21 e 22 (poeiras): classificação sem decoreba

Jucely DamásioEngenheira de Segurança do Trabalho | Gestão de Riscos·12 min de leitura
Painel elétrico com placa de sinalização "Área Classificada — Zona 1" em ambiente industrial petroquímico.

No artigo-pilar desta semana eu apresentei o mapa completo das áreas classificadas: o que são, por que existem e o que acontece quando alguém ignora a classificação. Se você ainda não leu, recomendo começar por lá — o link está em destaque no painel do cluster.

Aqui o foco é um nível abaixo: as seis zonas numéricas que o sistema define — três para gases e vapores inflamáveis (0, 1 e 2) e três para poeiras combustíveis (20, 21 e 22). A lógica da numeração tem uma lógica interna que, quando entendida, elimina a necessidade de decorar: você vai conseguir classificar um ambiente novo apenas raciocínio sobre frequência e duração da presença da atmosfera explosiva.

A lógica por trás dos números

O critério básico das zonas é simples: quanto mais frequente e contínua a presença de uma atmosfera potencialmente explosiva, menor o número. Zona 0 (ou 20) significa "está sempre lá". Zona 2 (ou 22) significa "quase nunca está, só em condições anômalas". O sistema inteiro é uma escala de probabilidade — e a numeração reflete essa probabilidade de forma direta.

Esse raciocínio é importante porque tira o foco da decoreba e coloca no diagnóstico: antes de atribuir uma zona, a pergunta certa é "com que frequência existe aqui uma atmosfera capaz de inflamar e explodir?" A resposta a essa pergunta, apoiada nos critérios da ABNT NBR IEC 60079-10 (para gases) e da ABNT NBR IEC 60079-10-2 (para poeiras), é que determina a zona — não a intuição, não a tradição da planta.

Zonas para gases e vapores inflamáveis (NR 10 / IEC 60079-10-1)

Classificação de zonas para gases e vapores — critérios e exemplos
ZonaDefinição técnicaFrequência / duraçãoExemplos industriais típicos
Zona 0Atmosfera explosiva de gás/vapor presente de forma contínua, por longos períodos ou frequentementeMais de 1.000 h/ano ou contínuaInterior de tanques de combustível; interior de vasos com solvente volátil em operação contínua
Zona 1Atmosfera explosiva de gás/vapor com possibilidade ocasional de formação em condições normais de operação10 a 1.000 h/anoÁrea próxima a aberturas de tanques, flanges e válvulas em processo com hidrocarbonetos; sala de baterias em carga
Zona 2Atmosfera explosiva de gás/vapor improvável em condições normais; quando ocorre, é por curto períodoMenos de 10 h/anoEntorno de equipamentos vedados; área adjacente à Zona 1 em distâncias seguras; interior de caixas de cabos em ambiente com solvente

Um ponto que frequentemente gera confusão: a Zona 0 é o interior do volume — o espaço dentro do tanque, dentro do duto, dentro do recipiente. Poucas pessoas trabalham dentro de um tanque em operação, mas o profissional de SESMT precisa garantir que qualquer equipamento elétrico ou instrumento que entre em contato com esse espaço seja certificado para Zona 0 — uma categoria bem mais restrita que Zona 1 ou 2.

Zonas para poeiras combustíveis (IEC 60079-10-2)

O sistema de zonas 20-21-22 foi criado para poeiras combustíveis — farinha, açúcar, carvão, plásticos finos, madeira, amido, cacau, alumínio em pó e dezenas de outros materiais que, em suspensão no ar dentro de determinadas concentrações, formam atmosferas explosivas. A lógica de frequência é idêntica ao sistema de gases, mas os números foram "deslocados" para 20-21-22 exatamente para deixar claro que estamos num risco diferente — e para evitar que equipamentos certificados apenas para gases sejam usados em ambientes de pó.

Classificação de zonas para poeiras combustíveis — critérios e exemplos
ZonaDefinição técnicaFrequência / duraçãoExemplos industriais típicos
Zona 20Nuvem de pó combustível presente de forma contínua, por longos períodos ou frequentemente no interior de equipamentosContínua / muito frequenteInterior de silos de farinha ou açúcar; interior de transportadores pneumáticos em operação; interior de filtros de pó em funcionamento
Zona 21Nuvem de pó combustível com possibilidade ocasional de formação durante operação normal fora dos equipamentosOcasional em op. normalÁrea próxima a pontos de carga/descarga de silos; áreas de moagem sem vedação total; próximo a válvulas de descarga de filtros
Zona 22Nuvem de pó combustível improvável; quando ocorre, é de curta duração — inclui áreas com acúmulo de pó que pode ser posto em suspensãoRara / acidentalEntorno de equipamentos bem vedados com pó; áreas de limpeza irregular onde há depósito de pó no piso e superfícies

O erro da camada de pó: por que a Zona 22 não é "sem risco"

O critério mais subestimado da classificação de zonas 20-21-22 é o da camada de pó depositada. A norma considera que uma camada de pó combustível com mais de 5 mm de espessura em superfícies quentes (ou qualquer espessura em superfícies com temperatura acima do ponto de ignição da pó) é um risco classificável. Isso significa que uma área que opera "normalmente sem suspensão" mas tem acúmulo crônico de pó no piso, em vigas ou sobre equipamentos pode ser enquadrada como Zona 22 — exigindo que qualquer equipamento elétrico instalado ali seja certificado Ex.

O SESMT que faz apenas o mapeamento da nuvem de pó e ignora o depósito está incompleto. A inspeção de campo precisa incluir medição de espessura de depósito e avaliação de temperatura superficial dos equipamentos — não é visita ocular, é diagnóstico técnico.

Como a zona define o equipamento

Cada zona exige uma categoria de equipamento Ex correspondente. Isso está na norma ABNT NBR IEC 60079-14 (instalação) e na série 60079 de certificação. O ponto prático que o SESMT precisa entender:

  • ▸Zona 0 → Categoria 1G (para gases): equipamentos seguros até mesmo com atmosfera explosiva contínua — máxima proteção, menor quantidade disponível no mercado
  • ▸Zona 1 → Categoria 2G: equipamentos seguros com atmosfera explosiva ocasional — a maioria dos motores, luminárias e instrumentos Ex disponíveis
  • ▸Zona 2 → Categoria 3G: equipamentos seguros em condições anômalas — solução mais comum em áreas de refinaria, postos de combustível e salas técnicas
  • ▸Zona 20 → Categoria 1D (para poeiras): mesmo princípio da Zona 0, mas certificado para pó
  • ▸Zona 21 → Categoria 2D
  • ▸Zona 22 → Categoria 3D

O número do certificado Ex de um equipamento traz o código de proteção (Ex d, Ex e, Ex ia, Ex t etc.), o grupo de gás ou pó e a temperatura máxima superficial. Verificar se o equipamento comprado bate com a zona classificada e com o gás ou pó específico da planta é obrigação do profissional habilitado que assina o projeto elétrico de área classificada.

Perguntas frequentes — zonas de risco

▸Posso usar um equipamento Zona 1 numa Zona 0?

Não. A categoria 2G (Zona 1) não oferece proteção suficiente para ambiente com atmosfera explosiva contínua. Zona 0 exige categoria 1G. O inverso é permitido: um equipamento mais rigoroso pode ser usado em zona menos severa.

▸O que acontece se o pó for condutivo?

Poeiras condutivas (alumínio, magnésio, carvão de baixa resistividade) requerem equipamentos com marcação adicional e nível de proteção maior — as normas IEC 60079-10-2 e IEC 60079-31 tratam desse caso. Consulte profissional habilitado para o laudo.

▸Posso ter Zona 0 e Zona 2 lado a lado?

Sim. O interior de um tanque pode ser Zona 0 enquanto a área de 3 metros ao redor da válvula de respiro é Zona 1 e o restante do entorno é Zona 2. O mapa de áreas classificadas representa exatamente essa transição espacial.

▸Qual norma vale: NR 10 ou IEC 60079?

A NR 10 (Brasil) adota as normas ABNT NBR IEC da série 60079 por referência — elas não são concorrentes, são complementares. A NR 10 estabelece as obrigações legais e a série IEC dá o método técnico de classificação e instalação. O laudo precisa citar ambas.

Recomendação da Engenheira

Recomendação da Engenheira: o Kit Master de Segurança Industrial inclui a planilha de mapeamento de áreas classificadas com campos para zonas, substâncias, temperatura de ignição, grupo de gás e raio de extensão — além do checklist de inspeção de equipamentos Ex em campo. O mesmo documento que uso nos laudos da usina, adaptado para qualquer setor.

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Perguntas frequentes

▸O que significa zona 0?

É o local onde uma atmosfera explosiva formada por gás, vapor ou névoa está presente continuamente, por longos períodos ou frequentemente. A classificação não deve ser atribuída sem avaliação do processo.

▸O que significa zona 1?

É o local onde a atmosfera explosiva de gás, vapor ou névoa pode ocorrer ocasionalmente em operação normal. A frequência e a duração da liberação devem ser documentadas.

▸O que significa zona 2?

É o local onde a atmosfera explosiva não é esperada em operação normal, mas, se ocorrer, permanece por curto período. Falha de ventilação e vazamentos devem ser considerados.

▸O que é zona 20 para poeiras?

É o local onde uma nuvem de poeira combustível está presente continuamente, por longos períodos ou frequentemente. Camadas de poeira também precisam ser avaliadas.

▸O que diferencia zona 21 e zona 22?

Na zona 21 a nuvem de poeira pode aparecer ocasionalmente em operação normal; na zona 22 ela não é esperada normalmente, mas pode surgir por curto período em condição anormal.

▸Gás pesado sempre fica no piso?

Não é seguro concluir isso apenas pela densidade. Temperatura, turbulência, geometria, ventilação e mistura influenciam a dispersão. A classificação deve usar dados do processo e não uma regra isolada.

▸Uma camada de poeira pode virar atmosfera explosiva?

Sim. Uma camada pode ser revolvida, formar nuvem e participar de uma explosão. Limpeza controlada e prevenção de depósitos são medidas essenciais.

▸Qual equipamento usar na zona 0?

O equipamento deve possuir certificação e tipo de proteção compatíveis com zona, grupo, classe de temperatura e demais condições da instalação. A seleção não deve ser feita apenas pelo nome comercial.

▸A classificação vale para toda a sala?

Não necessariamente. A extensão da zona depende da fonte de liberação e da dispersão. O mapa deve indicar limites e volumes classificados, inclusive ao redor de equipamentos.

▸O que acontece se faltar energia na ventilação?

O procedimento deve levar a uma condição segura, com alarme, parada ou restrição de operação conforme o projeto. A falha não pode ser tratada como detalhe administrativo.

▸Como revisar o mapa de zonas?

Compare o mapa com P&IDs, inventário de produtos, dispositivos de alívio, ventilação e alterações de layout. Registre premissas, data, responsável e mudanças consideradas.

▸Área de poeira combustível precisa de detector de gás?

Detector de gases não mede automaticamente poeira combustível. O controle exige avaliação de geração, acúmulo, dispersão, ignição, limpeza e equipamentos compatíveis.

▸Posso usar ferramenta elétrica portátil na zona 2?

Somente quando a avaliação e a permissão de trabalho confirmarem que a ferramenta é adequada à zona e que as medidas de controle foram implementadas. Em dúvida, deve-se adotar alternativa não geradora de ignição.

▸Quem aprova o mapa de classificação?

A organização deve garantir revisão por profissional competente e aprovação formal dentro do sistema de gestão. A responsabilidade não desaparece porque o desenho foi terceirizado.

▸Classificação de área substitui a análise preliminar de risco?

Não. Ela é uma entrada técnica importante, mas a APR deve considerar a tarefa, energias, pessoas, ferramentas, simultaneidade e medidas de emergência.

▸Qual norma internacional é usada para zonas de gás?

A série ABNT NBR IEC 60079 é a referência técnica usual para atmosferas explosivas, além de requisitos legais e normas de processo aplicáveis à instalação.

Continue a pesquisa: Forro é Espaço Confinado? Como Caracterizar Entreforros de Frigoríficos e Indústrias sem Errar na NR 33, Os 5 Erros Fatais em Espaços Confinados — e Como Evitá-los e Áreas classificadas do zero: zonas, grupos e o mapa que todo SESMT precisa dominar. Para conferir o equipamento correto, use o buscador de CA; para aprofundar a preparação profissional, veja também as apostilas de SST.

Jucely Damásio

Jucely Damásio

Engenheira de Segurança do Trabalho | Gestão de Riscos · Coordenadora de SSMA · 20+ anos de indústria